SENTA A PUA – 1º Grupo de Aviação de Caça Brasileiro

05.12.17 - 22:33
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A unidade foi criada em 18 de dezembro de 1943, um ano e quatro meses após a declaração de guerra do Brasil aos países do Eixo. Para comandá-la foi nomeado o então Major Aviador Nero Moura, atualmente o “Patrono da Aviação de Caça” da FAB.

A verdadeira história desta unidade teve início quando o seu comandante, juntamente com o “pessoal-chave”, foram deslocados para a Escola de Tática, em Orlando, Flórida. Enquanto isso, o restante dos voluntários da unidade seguiu para a Base Aérea de Aguadulce no Panamá. Durante a permanência em Aguadulce, todos os pilotos realizaram o curso de caça a bordo de aeronaves P-40, inclusive os que haviam ido para Orlando. Após o treinamento todos se engajaram nas missões de defesa do Canal do Panamá até 22 de junho de 1944. Em uma destas missões o 2º Tenente Aviador Dante Isidoro Gastaldoni veio a falecer.

Terminada esta primeira fase, todos os pilotos foram transferidos para Suffolk, Long Island, a fim de se adaptarem ao avião que iria equipar o Grupo de Caça na campanha da Itália: o Republic P-47 “Thunderbolt”. Este caça-bombardeiro dispunha de um motor de 2.000 HP, 8 metralhadoras .50, com uma cadência de 7.200 tiros por minuto, podendo levar foguetes e bombas de até 1.000 libras em cada asa. Dependendo da configuração empregada, o P-47 ultrapassava o peso de um Douglas C-47.

Encerrada a adaptação ao novo caça, os pilotos embarcaram em Patrick Henry, Virgínia, no dia 19 de setembro de 1944, no navio de transporte americano UST Colombie, com destino à Itália.

O desembarque se deu em Livorno, a 6 de outubro de 1944, sendo todo o efetivo imediatamente transferido para a Base Aérea de Tarquínia. O Grupo de Caça passou então a integrar o 350th Figther Group (EUA), com a denominação de 1st Brazilian Fighter Squadron. Durante a primeira cerimônia de hasteamento da bandeira brasileira em Tarquínia, o Comandante do Grupo de Caça, então Major-Aviador Nero Moura, raro exemplo de dignidade e coragem, dotado, ainda, de profundo sentimento de solidariedade humana, por isso atual “Patrono da Aviação de Caça” da FAB, disse em sua ordem do dia, com o ardor de quem ama e respeita este país:

“Na história dos povos coube-nos, assim, a honra de sermos a primeira Força Aérea sul-americana que cruzou oceanos e veio alçar as suas asas sobre os campos de batalha europeus. Antes de entrar em ação, aqui no velho mundo, o 1º Grupo de Caça cumpre o sagrado dever de plantar em território inimigo a Bandeira do Brasil.
Camaradas: para frente, para a ação, com o pensamento fixo na imagem da Pátria, cuja honra e integridade juramos manter incólumes.
Cumpre-nos tudo enfrentar, com fortaleza de ânimo, a fim de manter intacto esse tesouro jamais violado: a honra do soldado brasileiro! E nós o faremos, custe o que custar.”
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Ao Grupo foi designado o código rádio de JAMBOCK. Segundo um levantamento feito pelo Major-Brigadeiro Rui Moreira Lima, também piloto do Grupo na Itália e autor do famoso livro “Senta a Pua!”, este nome é oriundo da África do Sul e significa um tipo de chicote confeccionado com o couro do rinoceronte. Entretanto, a famosa gíria “Senta a Pua!”, tradicional no nordeste daqueles tempos, se incorporou naturalmente aos homens do Grupo de Caça. Passou a ser o grito de guerra da unidade até os dias de hoje.
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Durante a permanência em Tarquínia o Grupo de Caça perdeu, em 6 de novembro, o seu primeiro piloto, em missão de ataque a região de Bolonha: o 2º Tenente John Richardson Cordeiro e Silva.
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Em 4 de dezembro de 1944, a unidade brasileira foi deslocada para a Base Aérea de San Giusto, em Pisa, 200 Km ao norte de Tarquínia e bem mais próxima das linhas inimigas no norte da Itália. Em momento algum o Grupo de Caça deixou de operar durante essa transferência. Os aviões decolavam de Tarquínia para as missões de ataque e já pousavam na nova Base de Pisa. Segundo o relato do Comandante do Grupo, Nero Moura, o pessoal de apoio terrestre teve um desempenho fundamental na realização impecável desta operação.

O auge das missões ocorreu no dia 22 de abril de 1945, data que até hoje é comemorada como o “DIA DA AVIAÇÃO DE CAÇA”. Somente neste dia foram realizadas 11 missões de 44 surtidas, com apenas 22 pilotos. Vale ressaltar que, durante toda a campanha da Itália, o 1º Grupo de Aviação de Caça jamais recebeu qualquer piloto para substituir aqueles que ultrapassavam a média de 60 missões. Já os pilotos americanos, após realizarem a 35ª missão, regressavam aos Estados Unidos para um descanso obrigatório.

No período de 6 a 29 de abril de 1945, o Grupo de Caça Brasileiro voou 5% do total das saídas executadas pelo XXII Comando Aerotático e, no entanto, dos resultados obtidos por este Comando foram oficialmente atribuídos aos brasileiros 15% dos veículos destruídos, 28% das pontes destruídas, 36% dos depósitos de combustível danificados e 85% dos depósitos de munição danificados.

Alguns dos trechos da Proposta de Citação Presidencial de Unidade enviado pelo Comandante do 350th Fighter Group, Coronel-aviador Ariel Nielsen, ao XXII Comando Aerotático, resumem fielmente as atividades do Grupo de Caça nesta fase da guerra:

“Proponho-vos seja o 1º Grupo de Caça Brasileiro citado pelos relevantes feitos realizados no conflito armado contra o inimigo, no dia 22 de abril de 1945. Este Grupo entrou em combate numa época em que era máxima a oposição da antiaérea aos çaça-bombardeiros. Suas perdas têm sido constantes e pesadas e têm tido poucas substituições. À medida que se tornaram menos numerosos cada um passou a voar mais, expondo-se com maior freqüência. Mesmo assim, em várias ocasiões, tive que refreá-los quando queriam continuar voando, porque considerei que já haviam ultrapassado o limite de resistência. A perícia e a coragem demonstradas nada deixam a desejar. chamo-vos a atenção para a esplêndida exibição do seu excelente trabalho contra todas as formas de interdição e coordenação de alvos.
Em minha opinião, seus ataques na região de San Benedetto, no dia 22 de abril de 1945, ajudaram a preparar o caminho para a cabeça de ponte estabelecida pelos Aliados, no dia seguinte, na mesma região. A fim de completar isso, o 1º Grupo de Caça Brasileiro, em seus feitos, excedeu os de todos os outros Grupos e sofreu sérias perdas. Acredito estar refletindo o sentimento de todos os que conheceram o trabalho do 1º Grupo de Caça Brasileiro, ao recomendar que eles recebam a Citação Presidencial de Unidade (PUC – Presidential Unit Citation). Tal citação é, não só meritória, mas tornar-se-ia carinhosa à lembrança dos brasileiros, na comemoração dos esforços que foram desenvolvidos neste Teatro de Operações.”

A condecoração acabou não sendo oficializada após a guerra, pois este tipo de comenda somente era atribuído a unidades americanas e de tamanho superior ao do Grupo de Caça. Esta grande injustiça só seria reparada 41 anos após o final da 2ª Guerra Mundial. No dia 22 de abril de 1986, por determinação do então Presidente dos EUA, Ronald Reagan, o 1º Grupo de Aviação de Caça recebeu, durante as comemorações do “Dia da Aviação de Caça”, realizadas anualmente na Base Aérea de Santa Cruz, a merecida Citação Presidencial Americana. Somente uma unidade inglesa que lutou durante a Batalha da Inglaterra detém, juntamente com o Grupo de Caça, a honra de possuir tal distinção. Infelizmente, por motivos até hoje desconhecidos, os integrantes do 1º Grupo de Aviação de Caça estiveram proibidos de usar tão importante condecoração. Esta proibição incluiu também o estandarte da unidade. Felizmente, esta proibição foi cancelada, e atualmente o Grupo de Caça e seus integrantes ostentam, com orgulho, a merecida comenda.

A guerra na Itália se encerrou em 2 de maio de 1945. O Grupo de Caça no período que ali permaneceu teve 22 baixas. Cinco pilotos foram mortos abatidos pela artilharia antiaérea, oito tiveram seus aviões abatidos e saltaram de pára-quedas sobre o território inimigo (sendo que três deles foram aprisionados em campos de concentração alemães e libertados pelos aliados ao final da guerra), seis foram afastados de vôo por indicação médica devido a esgotamento físico e três faleceram em acidentes de aviação.

Segue abaixo um pequeno sumário estatístico das atividades do 1º Grupo de Aviação de Caça durante a campanha na Itália:

Total das missões executadas……………………………………. 445
Total de saídas ofensivas………………………………………… 2546
Total de saídas defensivas……………………………………………. 4
Total de horas de vôo em operações de guerra………….. 5465
Total de horas de vôo realizadas………………………………. 6144
Total de bombas lançadas………………………………………. 4442
Bombas incendiárias (F.T.I)……………………………………… 166
Bombas fragmentação (260 lbs)………………………………….. 16
Bombas fragmentação (90 lbs)……………………………………. 72
Bombas demolição (1.000 lbs)……………………………………… 8
Bombas demolição (500 lbs)…………………………………… 4180
Total de munição calibre .50…………………………….. 1.180.200
Total de foguetes lançados………………………………………… 850
Total de litros de gasolina consumida………………… 4.058.651

As operações de guerra foram encerradas e a grande maioria do pessoal do Grupo de Caça foi embarcada no navio transporte americano USS General Meighs, no porto de Nápoles, no dia 6 de julho de 1945. Chegaram ao Brasil, no cais da Praça Mauá, Rio de Janeiro, em 18 de julho.

Caças P-47 “THUNDERBOLT”, num total de 19, liderados pelo Tenente-Coronel-Aviador Nero Moura, foram transladados de Kelly Field, Texas, para o Brasil. Estes aviões faziam parte de um estoque existente nos USA e que seria enviado para a Itália, a fim de recompletar as perdas em combate. Realizaram diversas passagens aéreas sobre o Rio de Janeiro antes de pousarem no Campo dos Afonsos, Rio de Janeiro, no dia 16 de julho de 1945.
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Desde a sua criação, o 1º Grupo de Aviação de Caça operou as seguintes aeronaves: P-40, P-47 “Thunderbolt”, T-6 North American, F-8 “Gloster Meteor” (primeiro avião a jato a voar no Brasil), T-33/F-80 “Shooting Star” e AT-26 “Xavante”. Atualmente opera os supersônicos F-5 “Tiger ” da Northrop.

O legado deixado pelos heróis do Grupo de Caça na Itália serviu de alicerce para a formação dos futuros pilotos de caça da FAB e, com certeza, foi o principal responsável pelo surgimento da verdadeira mentalidade guerreira da Força Aérea Brasileira.

Fonte: Carlos Daróz / Blog História Militar
Ilustração: Fabrício Souza

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Piloto Comercial de Avião, formado pelo Aeroclube do Brasil, Fundador do Norte Verdadeiro, escritor nas horas vagas, aficionado por cinema, tecnologia e fotografia, completamente apaixonado por tudo que voa e pela magia de voar.