PERIGO AVIÁRIO, RISCO POTENCIAL DE COLISÃO

15.04.17 - 11:39
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Por Hilton Rayol

Aviação tem vivenciado sérias consequências quando eventos que envolvem colisão com pássaros durante as operações de pousos e decolagens acontecem, o perigo que essas aves oferecem permanecendo nas proximidades dos aeroportos, trazem sérios problemas que estão associados ao custo que as empresas experimentam, devido a interrupção do voo, e a indisponibilidade da aeronave, deixando o equipamento fora de sua operação por um certo período para recuperar o dano causado pela colisão, o que representa um valor significativo.

Além dos custos diretos que envolvem a substituição de peças danificadas pelo impacto existem ainda os custos indiretos, que são os custos que não envolvem a aeronave, mas que são decorrentes do incidente, como: hotel de pernoite para os passageiros, realocação em outros voos, comissária desperdiçada, combustível alijado, atrasos nas conexões e ainda o valor que a aeronave deixa de arrecadar por estar parada (MENDONÇA, 2005)

Vamos iniciar trazendo o conceito do perigo aviário.

Perigo aviário é o risco potencial de colisão com ave ou bando de aves, no solo ou em determinada porção do espaço aéreo. O risco de acidente aeronáutico causado por colisão com aves é composto de duas variáveis: a probabilidade de colisão e a gravidade da colisão”.

Este conceito possui duas características interessantes sempre presentes na aviação, diz respeito ao perigo e ao risco. O perigo sempre será uma ameaça que provoca danos que possam acarretar ferimentos, doenças ou morte de pessoas, prejudicando um sistema, equipamento ou danos a propriedade e principalmente ao meio ambiente. O risco traz a sua característica com duas variáveis, são elas: a severidade e a probabilidade, ou seja, a combinação delas tomando como referência a pior condição possível, portanto se aumentarmos esses dois aspectos, estaremos permitindo que eventos indesejáveis venham acontecer, interferindo na segurança do voo e trazendo sérios problemas as operações do voo.

A Organização da Aviação Civil Internacional (OACI) iniciou a coletar dados sobre o evento Bird Strike em 1965 e em 1980 implementou o Bird Strike Information System (IBIS), um sistema de coleta e divulgação das informações sobre colisões de aeronaves com aves (MADEIREA; MARTOS, 2013).

No Brasil o órgão responsável por administrar tais dados e dar apoio à criação de planos de prevenção no Brasil é o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (CENIPA).
De acordo com alguns estudos que o CENIPA vem realizando, apresentou informações relevantes sobre estas colisões, demonstrando as áreas que são mais atingidas durante as decolagens e pousos, e conforme a figura abaixo, a maioria das colisões ocorreu durante decolagens (25%) e pousos (26%). Isso significa que é preciso aumentar as atividades de dispersão de fauna para reduzir a presença de animais sobre a pista quando o aeródromo está em operação. A aviação civil enviou 95,23% das fichas ao CENIPA.

De acordo com a Regulação, Lei nº 12.725/2012 estabeleceu algumas inovações interessantes, uma delas trata da Área de Segurança Aeroportuária – ASA, está definida como uma área circular do território de um ou mais municípios, definida a partir do centro geométrico da maior pista do aeródromo ou do aeródromo militar, com 20 km de raio, cujo o uso e ocupação estão sujeitos a restrições especiais em função da natureza atrativa da fauna.

O Conselho Nacional do Meio Ambiente – CONAMA, estabelece o conceito de “implantação de Natureza Perigosa” e determina a sua proibição nas áreas de Aproximação e Áreas de Transição dos Aeródromos e Helipontos.

Não é permitido a implantação de atividades de natureza perigosa, isto é, aquelas classificadas como foco de atração de pássaros, tais como matadouros, curtumes, vazadouro de lixo e culturas agrícolas que atraíam pássaros, assim como quaisquer outras atividades que possam proporcionar riscos semelhantes à navegação aérea.

Segundo o levantamento estatístico realizado pelo CENIPA em 2015, revela o número significativo de eventos reportados durante as operações de pousos e decolagens. O Anuário de Risco de Fauna reportou 1824 colisões, 1083 quase colisões e 2634 avistamentos. O referido documento destaca que 5% das colisões envolveram animais terrestres que normalmente são os causadores dos animais dos maiores danos em relação a colisão com ave, porém menos representativos quanto a segurança da operação, pois ocorrem em solo e em fases do voo onde se opera com velocidades reduzidas. A figura abaixo, descreve sobre os índices de colisões reportadas, e os registro das aeronaves envolvidas.

Podemos observa através do Anuário de Risco de Fauna (CENIPA,2015), que entre 2011 e 2015, este cálculo sugere que no Brasil foram registrados aproximadamente 1 a cada 3 colisões (29,34%), que geraram custos aproximados de U$ 65 milhões (CENIPA, 2015). Portanto um número significativo de eventos reportados durante este período, trazendo sérias consequências para as operações de voo. Essas consequências estão relacionadas a continuidade do voo, e em relação à severidade das colisões, existe consenso que a massa total envolvida na colisão tem alta correlação com danos causados às aeronaves (ALLAN, 2006; PATON, 2010; ANAC, 2015).

Danos Estruturais e Humanos, tem demonstrado altos índices de colisões de aves resultando em perdas materiais e por vezes vitimado seres humanos. Esse evento está relacionado ao momento resultante do impacto de um pássaro, variando com o peso do pássaro e a velocidade da aeronave.

Estatísticas realizadas revelam que 70% a 80% das colisões com pássaros ocorrem entre o solo e 150 metros de altura, na vizinhança do aeródromo.

Os dados disponíveis demonstram que 33,3% das colisões ocorrem com aeronaves de caça, 28,2% com aeronaves de transporte de carga, 21,6% com aviões de treinamento e 16,9% com outros tipos (Flying Safety – September 1986)

De acordo com a figura acima, mostra a gravidade que essas aves causam quando próximas a um motor turbofan. Essa ingestão apresenta alguns aspectos relevantes, a saber:
A ingestão pelo motor poderá causar estragos diversos, dependendo das circunstâncias do impacto. Nos motores a jato, poderá ocorrer apenas mossas nas lâminas do “fan” ou do próprio compressor.

O estrago causado pelo impacto pode gerar uma vibração, aumentar a temperatura dos gases, causar o “stall” de compressor, fogo no motor e/ou colapso total do reator.
Outro detalhe interessante que devemos levar em consideração é a possibilidade do pássaro não danificar as palhetas do compressor, mas bloquear a entrada de ar, ocasionando o “stall” do compressor por falta de ar ou pelo turbilhonamento do fluxo de ar.

A fase mais crítica de ingestão de pássaros pelo motor ocorre na decolagem. Durante essa fase crítica do voo, é essencial que o piloto reconheça a situação de emergência o mais rápido possível, para que possa efetuar os itens previstos nos procedimentos.

Considerando que a maioria das colisões ocorrem nas operações de pouso e decolagem, muitas providências poderão ser colocadas em ação, visando a sua redução e, consequentemente, obtendo-se um incremento da segurança de voo.

Portanto, é importante que se crie mecanismos que sejam eficientes, com o intuito de coibir essas colisões com aves durante as operações. Mobilizar todos os setores que estão envolvidos, buscando soluções que possam mitigar os riscos diminuindo suas severidades e probabilidades e acima de tudo mantendo voos cada vez mais seguros.


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Bacharel em Aviação Civil pela UNICESP em Brasília; MBA em Gestão Aeroportuária; Pós-graduação em Segurança de Voo e Aeronavegabilidade pelo ITA; Cursos de Sistema de Gerenciamento da Segurança Operacional SGSO pela ANAC; Perito Judicial Aeronáutico pelo Instituto J.B. Oliveira; Performance Bearing Navigation PBN pela ANAC.